Singularity – Capítulo 19

 

Capítulo 19 – De sol e de neve

Eu tinha decidido tentar minha sorte um pouco mais porque as visões de Jasper não estavam ficando mais claras enquanto eu ficava no Norte então eu pensei que uma viagem na direção errada poderia forçar as coisas. Além disso eu realmente queria ver  Hollywood e visitar Las Vegas novamente. Nada é mais divertido do que Vegas para uma vidente. Eu deixei Nova York em novembro de 1938 e fui rumo ao deserto do Sudoeste.

Minha primeira parada foi em Las Vegas. Eu poderia verdadeiramente me deixar levar pelo meu dom lá, e eu fui paga por isso! O local estava se tornando a minha segunda casa.

Foi um grande mistério para mim mais profundo até mesmo que Stonehenge por que alguém iria construir um local de férias em Nevada. Que insanidade levou alguém para apontar para o deserto árido e dizer para si mesmo que lá era o lugar perfeito para colocar Las Vegas? Eu amei a cidade mas não seria onde eu teria escolhido para colocá-la. Nuvens de qualquer tipo são raras uma vez que era o deserto e se apostar fosse uma atividade do dia eu teria ficado muito sem rumo. Felizmente porém, a diversão não começava até o anoitecer em Las Vegas, então eu não perderia muita coisa.

Apesar da feiúra estéril acabei apreciando a desolação da região do grande deserto. Eu não poderia dirigir a noite toda aqui pois os postos de gasolina eram distantes e fechados à noite. Eu estava muito preocupada que seria incapaz de viajar muito aqui por causa da presença constante do sol mas eu não precisava me preocupar. Eu dirigi muito das estradas do deserto com a capota do carro abaixada pois não havia nenhuma razão para esconder a superfície brilhante do meu corpo. Era tão isolado no deserto de Nevada e Utah que eu poderia estar dirigindo nua e nenhuma alma teria visto.

Depois fui ver os desertos do Arizona e Novo México. Passei duas semanas lá escalando o Grand Canyon e vendo as Cavernas Carlsbad no Novo México. O alto deserto era bonito e solitário então eu pude vê-lo durante o dia. A única desvantagem desta região era que a comida era horrível. Coiotes e cabras não tem um gosto bom de forma alguma, e de jeito nenhum eu experimentaria uma cobra.

Depois da turnê dos desertos eu dirigi para o sul da Califórnia.

Eu me lembro da primeira vez que vi Los Angeles. Era pôr do sol quando o meu carro finalmente chegou com dificuldade ao topo da última colina árida e olhei para a bacia de Los Angeles em direção ao mar. A cena foi realmente de tirar o fôlego. A cidade era como um oásis no meio de dois desertos: um sem água, e os outro apenas com água, e isso poderia ter passado como o céu na terra para mim.

Desta vez eu tinha escolhido para ficar em um hotel ostentoso fora de Hollywood que foi feito no estilo californiano. Minhas vitórias em Vegas eram mais que suficientes para cobrir o custo. Eu tive que dirigir com uma blusa de manga comprida e luvas até que foi quase pôr do sol antes que eu pudesse conduzir até a entrada coberta para o resort. O sol era definitivamente um problema aqui.

“Olá senhora, posso ajudá-la?” Perguntou a recepcionista, uma mulher mais velha com os cabelos perfeitamente arrumados.

“Sim, meu nome é Brittany Michaels e gostaria de uma suite por favor,” eu respondi tentando parecer chique.

“Você está sozinha? Nossas suítes são bem grandes e muito caras, você pode querer acomodações menores, ” ela me disse.

“Sim, eu estou sozinha, e eu não me importo com o preço. Se você não pode me ajudar, ” eu tirei um rolo de meus ganhos duramente conquistados, “então por favor vá encontrar alguém que possa”.

“Sim senhora” ela balbuciou com os olhos arregalados. Ela olhou duro para meu rosto e para o cabelos desarrumados pelo vento, e pareceu chegar a alguma conclusão. “Sinto muito pelo equívoco senhora, uh, Michaels.” Ela tocou um pequeno sino e pelo menos quatro homens apareceram para pegar meu carro e minha bagagem.

“Então, com qual estúdio você está senhora?” ela perguntou um pouco mais envergonhada.

“Me desculpe?”

“Bem, hum, você não precisa me dizer, é claro, mas é útil para nós sabermos onde você vai ser levada.”

Eu quase ri alto quando eu finalmente entendi. Ela pensou que eu era uma atriz. Todo mundo aqui estava de alguma forma ligado à indústria do cinema então ela simplesmente presumiu que com minha aparência e o meu dinheiro eu deveria estar aqui para um filme. Que divertido. Decidi tentar a minha sorte para me encaixar na glamurosa vida de uma estrela. Quando em Roma …

“Universal,” sussurrei para ela “mas por favor mantenha meu nome e paradeiro em segredo.” Ela assentiu vigorosamente e piscou. “Eu precisei saber como chegar lá amanhã,” sussurrei conspiratoriamente. Essas pessoas iam me ajudar a ver Hollywood de perto e pessoalmente.

“Teremos um mapa esperando por você senhora Michaels. Precisa de um carro? “

“Não, eu gosto de dirigir. Isso me dá uma vantagem sobre os caras, se você entende o que quero dizer,” eu pisquei de volta. “Esses garotos vão fazer qualquer coisa para conseguir uma garota em uma posição comprometedora, então ter o meu próprio carro me dá um pouco mais de controle. Além disso, tão poucas das outras garotas sabem dirigir, você sabe.”

“É isso mesmo, querida,” ela concordou “você mantenha os meninos do estúdio em seu lugar. Então, Brittany Michaels é o seu nome real?”

“Céus, não,” eu falei, dizendo a ela um pouco da verdade. “Todos nós usamos nomes artísticos, sabe?” Pisquei para ela novamente e sua bochecha pintada ficaram em um tom mais avermelhado.

Apenas então minhas malas chegaram e eu fui grandiosamente escoltada para a minha grande suíte.

O hotel me deu um buquê de flores frescas todos os dias e fez com que eu soubesse como chegar a qualquer lugar que eu quisesse ir. Eu nadei no Pacífico e andei pelas ruas de Tinsel Town à noite amando todas as coisas sobre o lugar. Entrei na Universal uma noite e passei três dias vagando nos sets em busca de um vestido que eu poderia roubar dos guarda-roupas. Hollywood foi feito para pessoas como eu e eu apreciei cada minuto que passei no estúdio. Todos achavam que eu era uma atriz perdida, como tantas outras nos sets, e ninguém sequer olhou duas vezes para mim. Eu até fiz figuração para dois filmes. Foi muito divertido!

Se o sul da Califórnia fosse menos ensolarado e um pouco menos lotado eu teria me mudado para lá permanentemente. Embora o sol fosse um verdadeiro problema, eu estava cansada de só ver a cidade à noite. Outro problema ainda mais surpreendente tinha aparecido, um que eu não esperava de forma alguma. Parecia que não importava por onde eu andasse, eu poderia sentir um cheiro de um vampiro. Foi especialmente forte quando eu fui ver os estúdios de cinema e, em seguida, novamente quando eu fui ver um filme da Shirley Temple no Grauman’s Chinese Theater. Acho que não deveria ter ficado surpreendida, pois vampiros eram quase tão atraídos por dinheiro e poder como eles eram por sangue. Então eu decidi ir embora depois de apenas duas semanas ao invés de correr o risco de encontrar com um da minha espécie aqui. Afinal este era o sul.

Sorri para as memórias do sol quente quando olhei pela janela novamente no cinzento frio de uma noite de neve em Detroit. Nada além da necessidade de um carro que me fez vir aqui. Meu lindo Cabriolet vermelho cereja estava parecendo surrado e dirigindo mal após a milhares de milhas que eu tinha feito com ele. Minhas vitórias de Las Vegas iria comprar o que eu quisesse: um brilhante dourado Ford Deluxe conversível.

Não havia nada a se fazer nesta sala de paredes brancas a não ser pensar e sentir o cheiro denso e ácido do fumo do tabaco. Eu odiava o fumaça do tabaco de qualquer espécie. Se eu não precisasse tanto de um carro, um que era simplesmente da cor e estilo certos, eu nunca iria me sentar em uma sala como esta. Olhei pela janela e suspirei. A neve cobria os edifícios visíveis fora dela e apenas adicionava monotonia ao lugar.

“Senhora Michaels?” A jovem recepcionista estava se preocupando comigo novamente. “Você tem certeza que eu não posso lhe trazer nada? Eu sei que isto levando um tempo, e posso dizer que você está um pouco entediada.”

Um pouco entediada?

“Talvez um jornal ou revista poderia ajudar,” eu sorri de volta.

Ela me trouxe o jornal local daqui de Detroit e mostrava o que eu já sabia que tinha acontecido. Alemanha ainda estava invadindo toda a Europa Oriental e a Grã-Bretanha e a França estavam em guerra com ela. Quanto tempo seria necessário para que os Estados Unidos entrassem na guerra? Um ano, dois, talvez? Era tudo que eu poderia fazer para ficar quieta enquanto eu olhava as manchetes e fotos. Não havia muito a não ser a guerra no jornal em dezembro de 1939, e eu sabia que a sangria tinha apenas começado. Mais uma vez eu desejei me libertar do meu dom implacável.

Eu não queria ler mais nada do jornal, então eu deixei minha memória deslizar novamente para a minha viagem para Los Angeles As memórias eram ensolaradas e cheias de core me deu grande alívio desse lugar frio e cinzento.

Eu provavelmente teria ficado com um humor melhor, mas eu tinha crescido assustadoramente meu amor pelo meu Cabriolet. Seus entalhes e riscos eram lembranças de minhas aventuras. Me senti completamente estúpida, é claro, mas me fez ficar triste deixa-lo. Eu senti como se eu estivesse deixando de um amigo. Não, não era bem isso. Eu senti como se estivesse traindo um amigo, mas não havia nenhuma boa maneira de levá-lo a Nova York ou eu deveria te-lo levado para casa comigo em vez de deixá-lo aqui.

Estúpida. Vampiros não deveriam se apegar a coisas frágeis, mas aqui estava eu me sentindo como uma traidora de um carro. Estúpida.

Suspirei outra vez e amassei o jornal enquanto eu cruzei meus braços em frustração para mim mesma.

A recepcionista achou que foi algo pessoal e foi para trás alguns metros.

“Senhora Michaels? Senhora Michaels, ah, você está aí, “sorriu o vendedor de colarinho branco assim que ele entrou na sala.

Foi amor à primeira vista.

“Está pronto?” Eu sorri de volta. O sentimento de traição foi se transformando em excitação. Eu era uma nova mãe prestes a conhecer o meu primeiro bebê. Ele sorriu e me levou para uma sala de exposiçõese m que estava um solitário carro dourado.

Foi amor à primeira vista.

Meu carro. Eu tinha encomendado só para mim. Interior em couro e madeira de nogueira com um exterior em um dourado profundo. Todo meu.

Eu sentiria falta do meu fiel Cabriolet mais do que eu poderia imaginar, mas este novo carro iria andar mais pelas montanhas e vales muito melhor do que o carro usado que tinha me levado por tantas milhas.

“Muito obrigada.” Eu disse que ele me entregou as chaves e saímos. Passei a mão entre as linhas do carro suavemente, como se eu estivesse acariciando um bebê recém-nascido. Eu tive que rir porque até eu conhecer Jasper este seria o mais próximo que eu teria de acariciar qualquer coisa com exceção talvez de um lindo vestido de seda.

A estrada de Detroit e de volta para Nova York foi tão monótona como o edifício tinha sido, branco com cinza no campo e cinza com branco nas cidades. Para quebrar a monotonia desolada eu pensei de novo no que eu tinha aprendido no sudoeste ensolarado. Em primeiro lugar, o sol está superestimado. Eu adorava o calor mas odiava a necessidade de me esconder. Em segundo lugar, os vampiros eram muito mais comuns no Sul do que eu imaginava. Em terceiro lugar, eu precisava fazer algo mais com o meu tempo do que apenas perseguir Jasper.

Encontrar a família? Não. Ainda não, mas talvez em breve. Eu só tinha os vislumbrado nas poucas visões que eu tive. Eu não tentava vê-los muito depois do incidente com Rosalie e Emmett, que foi o suficiente para me impedir de tentar vê-los novamente. Se eu tentasse ver o bom médico ou sua esposa eu tinha pelo menos cinquenta por cento de chance de visualizá-los em um momento inoportuno, pois eles também eram casados. Edward era a melhor aposta, mas ele parecia estar na escola ou trabalhando em vários empregos quase constantemente. Eu tinha visto ele e Emmett lutando várias vezes. Uma vez eu os tinha visto caçando ursos juntos e tive que rir da alegria de Emmett em matar um – como se fosse algum tipo de troféu. Eu tinha matado leões e elefantes e dezenas de ursos, quanto desafiador poderia ser um urso para o gigante Emmett?

A outra opção era tentar entrar no mundo da moda novamente, mas a época era horrível, pois o país estava parado entre uma depressão e uma guerra.

Então, algo diferente desta vez.

Eu me perguntava se eu estava pronta para tentar a faculdade. Desde que eu tinha ouvido a palavra tantos anos atrás, o pensamento me intrigava.

Eu poderia ir para a escola e conseguir um diploma? Carlisle tinha obviamente ido à escola, e eu pensei que tinha visto até Rosalie usando o que poderia ser apenas um horrível uniforme escolar, então era uma possibilidade pelo menos. Eu poderia ir à escola e estar com outros jovens e aprender. Eu podia sentir a excitação crescendo enquanto eu tomava meu caminho por Ohio. Sim! Já era tempo de eu ser educada.

Eu estava planejando dirigir direto para Nova York, e reduzi uma vez que eu tinha chegado à fronteira com a Pensilvânia. Eu não precisava entrar em uma visão completa de Jasper na neve e no gelo que cobriam as estradas, que é claro era toda a razão para a longa viagem, mas a visão não esperou por Nova York. Assim quando eu cruzava as colinas que separavam Ohio da Pensilvânia, de repente eu estava vendo Jasper em uma montanha. Eu tive a lucidez suficiente para pisar no freio e embreagem e manter meus pés lá. Eu nem sequer tinha uma pista de onde meu carro estava na estrada quando a visão me engoliu. Jasper parecia tenso, como se estivesse pronto para uma batalha, em um campo de neve. Não, em uma montanha de neve.

“Saia, saia, onde quer que esteja … covarde!”

Uma enorme bola branca bateu nele e o empurrou de volta para a neve.

“Bem patético para uma batalha épica, Jasper”, riu uma voz de mulher, e uma cabeça loura espreitou de uma pedra. Ela se abaixou a tempo de evitar o retorno da bola enviada por Jasper. Eu podia ouvir seu riso grave e curto em resposta. Eu me emocionei com o som dela. Eu nunca antes tinha ouvido seu riso.

De algum lugar muito distante uma série de bolas de neve apareceram na área onde Jasper estava. Ele correu para se esconder e voltou com os tiros com um estoque monumental de bolas de neve, atirando-as tão rápido como uma metralhadora. Risos vieram de mais acima da montanha e da pedra, que abrigava a mulher.

De repente, uma grande e branca bola pegou a mulher por trás, e ela gritou.

“Quer trocar de time, Charlotte? Aquele traidor que não vale a pena,” gritou Jasper entre os disparos. Instantaneamente, ela estava com ele, lançando bolas em seu companheiro traiçoeiro.

A cena mudou para o topo da montanha e eu pude ver uma figura correndo através de um cume e voltando várias vezes. A neve separava em sua trilha e uma avalanche estrondosa correu em direção a Jasper e Charlotte, enterrando-os completamente.

“Eu ganhei, eu ganhei, admita!” Peter cantou enquanto corria sobre a confusão de neve caída. Como se esperassem, Jasper e Charlotte pularam fora do banco de neve, seguraram Peter e caíram com ele de volta para o oceano de neve. Eu podia ouvir os gritos e gargalhadas brincalhonas quando a neve espirrava como um gêiser enquanto eles lutaram.

A cena mudou. Eles estavam na montanha de novo, mas agora eles estavam dando a cada outro abraços, então eles se separaram. Jasper desceu a montanha e Charlotte e Peter subiram pela encosta.

Eles estão se separando, eu pensei com tristeza.

A idéia de Jasper estar sozinho me cortava profundamente, porque ele não deveria estar sozinho. Eu já tinha visto a sua dor por muito tempo, e eu não podia suportar a idéia de ele estar solitário.Porém talvez, ele estivesse um pouco mais perto de me encontrar.

Eu tirei meu carro para fora do banco de neve e de voltei para a estrada para voltar para casa.

O cozinheiro tinha um avental gorduroso com a palavra “Marty” costurada nele, e ele me cumprimentou enquanto eu entrava pela porta. Eu podia ver as cortinas de xadrez vermelho e as paredes amarelas quando olhei ao redor. Eu poderia me sentir envolvido em alegria ao encontrar o lugar certo.

“Olá, querida. O que eu posso servir para você hoje?”, Disse ele alegremente em um sotaque forte da Pensilvânia.

Só então, meu carro correu pela porta da garagem e pisei nos meus freios.

Pensilvânia!

Eu não tinha idéia de onde na Pensilvânia procurar, mas o sotaque era inconfundível para os meus ouvidos. Marty tinha pelo menos de vir de algum lugar naquele estado, mas ele estava lá agora?

Minha mente estava tão cheia de possibilidades que levou alguns segundos para perceber que eu tinha quase matado o meu novo bebê.

Horrorizada, eu quase pulei pela minha porta para ver o dano que havia causado a visão. Eu peguei as portas de madeira e as coloquei de lado. O brilhante pára-choque dianteiro e o lindo capô dourado estavam amassados e riscados, como estava o teto, mas isso foi tudo. As portas de madeira velha estavam muito piores do que o meu novo carro. Ainda assim, senti um profundo sentimento de culpa pelo dano que havia causado. Era tão novo, e não merecia ser atirado contra uma porta.

Eu teria que esperar até de manhã para levar meu bebê na oficina para consertá-lo. Eu odiava a idéia de enfrentar Vinny com este carro novinho e esses danos. Eu nem precisaria dizer ao velho o que tinha acontecido, ele saberia só de olhar.

Suspirei pesadamente e comecei a descarregar o carro, temendo o amanhã. Eu tinha levado o antigo Cabriolet a oficina várias vezes para ser reparado, por isso ele estava acostumado com minhas viagens longas e erráticos hábitos de dirigir. Ele só pensava que eu era um pouco descuidada.

Passei a noite tentando descobrir como consertar as portas de madeira danificadas, mas tudo que eu fiz foi lasca-las ainda mais. Elas teriam de ser substituídas, e eu não tinha idéia de como fazer isso. Eu não sei o que me deixou mais furiosa, danificar tanto o meu carro quanto minha garagem ou não ser capaz de dedicar meu tempo para a maravilha da minha nova visão. Eu me afundei em auto-piedade e culpa até de manhã.

Eu dirigi lentamente pelas ruas para chegar à oficina Little Italy Body Shop que Gregorio tinha recomendado há muito tempo. Caminhei lentamente para o escritório gorduroso, com a cabeça baixa. Isso não ia ser bonito.

“Oi, Alice! O que você está fazendo aqui, boneca? Necessita que aquela bomba vermelha seja arrumada de novo? Eu quero ouvir a história toda desta vez “, riu o mecânico rotundo.

“Não é a bomba vermelha desta vez, é o meu carro novo”, eu murmurei. Vinny poderia me fazer sentir mais culpada do que ninguém.

“Carro novo?”, perguntou ele, e seus olhos pequenos aumentaram até que eles ficaram muito redondos. “Que carro novo?”

Eu só apontei para a rua com os meus olhos fixos no chão.

Eu podia ouvir os passos pesados de Vinny saindo para porta e seguido pelos passos leves dos mecânicos mais jovens. Eu ouvi um assovio, e depois outro. Eu me encolhi. Claro que todos os meninos iam querer dar uma olhada. Então as risadinhas começaram.

“Quanto tempo você tem aquela beleza?”, perguntou um dos homens mais jovens. Eles não trabalhavam muito em carros novos, e eu sabia que eles estavam loucos para olhar sob o capô. Era o mais potente motor que a Ford produzia.

“Três dias”, eu respondi com remorso.

“Três?”, perguntou Vinny, “Isso tem que ser um recorde até mesmo para você. Então, parece que algum tipo de porta grande bateu nele. Isso está certo? “

“Sim”. Claro que ele estava certo.

“Uma porta da garagem?”

“Sim”.

“Porta da garagem de quem?”

“A de um amigo.” Suspirei pesadamente. “Do Gregorio.” Eu continuei não levantando os olhos, mas os risos foram ficando um pouco mais altos.

Como é que aquele gordo e velho mecânico me faz, uma vampira jovem, me sentir tão miseravelmente para baixo? Eu era uma predadora de habilidade incomparável que poderia ter matado todos os homens aqui dentro de dez segundos, mas agora eu me sentia como uma criança que tinha sido apanhada sendo desobediente. Eu odiava essa sensação.

“Ele ainda é um amigo?”

“Eles estão fora da cidade e não sabem o que eu fiz”, expliquei em uma resmungada baixa. Ele riu sem rodeios.

“Ei, Luke, seu irmão ainda é carpinteiro?”

“Sim. Ele não tem trabalho agora que é inverno. Quer que eu vá buscá-lo? “

A questão era destinada para mim, então eu tinha que olhar para cima para ver quem era Luke e dar a ele minha resposta. Doze olhos alegres encontraram o meu olhar. Cada rosto tinha um sorriso complacente nele. Era pior do que eu pensava. Lucas deve ser o que estava com um sorriso largo.

“Ele pode me encontrar em Long Island hoje?” Eu perguntei. É claro que eu precisaria de um carpinteiro. Eu não tinha idéia de como consertar toda a madeira lascada.

“Ele não está fazendo mais nada, então eu acho que ele poderia ir lá. Me dê o endereço.

Eu aceitei tão rapidamente quanto podia e saí de mau humor de volta para casa.

“Alice?” Vinny me chamou de volta. “Pelo menos três dias, eu tenho que descobrir como chegar nessa cor. Graças a você por ter o único carro dourado na existência. Eu vou te ligar.” Ele sorriu novamente. Eu tinha lhe dado um trabalho, uma boa risada, e uma história maravilhosa para espalhar para todos os seus camaradas mecânicos, e ele estava muito grato por todos os três. Eu odiava ser eu mesma.

“Então… Como exatamente você não viu as portas?” Perguntou o irmão do Luke, Joe, quando ele viu a garagem. O prédio de dois andares era um tanto grande e difícil de não se ver.

“Hm… Eu só não estava vendo onde estava indo,” eu respondi. Não havia um jeito bom de responder essa pergunta. Quantas vezes eu tinha arruinado meu Cabriolet nos últimos seis anos? Minha mente respondeu doze, antes que eu pudesse ao menos tentar esquecer o que eu perguntei. Eu me encolhi de novo. Vinny estava certo, eu era uma ameaça nas estradas.

“Bem, eu tenho que ver quanto a madeira vai custar, e então vai levar cerca de uma semana ou duas, dependendo do tempo. Eu vou ligar com a estimativa, e então nós podemos marcar uma data para começar,” disse Joe. Ele tinha feito isso antes, o que ajudou a diminuir meu medo um pouco. Eu não queria que houvesse nenhuma evidência do meu acidente quando Paul voltasse.

Eu não podia acreditar que eu tinha destruído a casa do Paul. Ainda pior, eu tava presa aqui por pelo menos duas semanas enquanto o dano era consertado. Para compensar pela reforma nas portas, eu gastei tempo limpando cada centímetro da casa. Sem tentar olhar, eu notei que todas camas deles estavam pregadas no chão, mas a maioria aqui era feita de madeira. Eu tentei muito não pensar sobre isso enquanto eu limpava.

Eu também decidi que era hora de me preparar para seguir em frente. Eu tinha novas identidades, mas eu estava com dezoito anos nela dessa vez para que eu pudesse ficar por um tempo em qualquer lugar que eu escolhesse, e talvez ir à faculdade. Eu sabia que deveria ser em algum lugar da Pennsylvania agora, eu tinha planejado originalmente ir à faculdade em Nova York, mas agora tudo tinha mudado. Eu poderia ir às aulas durante o dia e visitar todos os restaurantes de todo o estado durante a noite. Eu nem precisaria entrar. Eu só tinha que encontrar aquelas cortinas e paredes brilhantes.

Eu me livrei de todos os meus pertences desnecessários que não iriam caber no meu porta-malas, e esperei para que o carro fosse consertado. Não foi tão difícil quanto antes me livrar de itens indesejados, eu acho que eu estava me acostumando com a idéia de ser nômade, ainda que eu ainda não gostasse disso.

Depois de uma semana e meia, as portas da garagem estavam quase prontas, e Vinny ligou para dizer que meu carro estava melhor do que um novo. Eu corri para a oficina cedo, antes mesmo que estivesse aberta, para que eu pudesse estar junto do meu orgulho e alegria. Eu estava perto da porta quando ouvi o assobio feliz do Vinny. Ele virou a esquina e deu um grande sorriso.

“Estamos um pouco impacientes, não é, Alice?” Ele fitou.

Me irritou que ele realmente acreditasse que mulheres não deveriam dirigir, e me irritou mais ainda que eu fosse a prova que ele estava certo.

“Só um pouco. Você demorou um pouco mais do que eu esperava,” eu ironizei de volta. Ele se orgulhava de sua habilidade de fazer um bom trabalho rápido.

“Eu achoo que você vai descobrir que valeu a pena esperar. Nós adicionamos uma coisinha pra você embaixo do capô,” ele disse com uma piscada.

Eu congelei por dentro, ou pelo menos, fiquei mais fria. “O que você fez com meu carro novinho?” Eu rosnei para ele. Eu de repente era mais parecida com um vampiro do que eu fui mais cedo.

“Relaxa,” ele disse enquanto abria a porta para a oficina, “primeiro, nós consertamos ele. Eu tive que encomendar a tinta direto de Detroit. O resto nós fizemos só por diversão. Agora, não fique brava,” ele começou com um tom de desculpas e eu entrei em pânico internamente, “mas nós conhecemos alguns jeitos de fazer um carro correr melhor do que o usual. Nós te demos um impulsozinho. Provavelmente é um pecado imperdoável dar a uma motorista como você mais poder atrás do volante, mas eu não pude resistir. Eu vou pagar penitência mais tarde. Gregório amou o que eu fiz com o Rolls Royce, então eu dei uma mexidinha com o seu motor também.” Ele estava sorrindo de orelha a orelha e quase explodindo de orgulho.

Meu pânico se transformou em curiosidade. Eu sabia que o Rolls poderia facilmente passar de cem milhas por horas, mas eu nunca soube como. Se meu carro pelo menos chegasse perto disso, bem, minhas viagens seriam um pouco mais emocionantes. Eu me vi sorrindo com a idéia.

“Vê? Você pensou que eu ia destruir o seu novo bebê, e aqui vou eu melhorar ele para você,” ele repreendeu enquanto me mostrava o carro.

“Como você fez isso?” Eu tive que perguntar. Parecia como quando ele foi trago para mim na agência em Detroit. Perfeito, absolutamente perfeito.

“Mágica,” ele riu piscando os olhos. “Ok, Alice, eu quero que você saia da cidade antes que você a abra. Eu não quero ser responsável pelo que você poderia fazer com esse bebê aqui onde há tantas vidas inocentes em risco. Apenas vá para algum lugar onde não haja tantas pessoas, e a coloque-a no máximo. Então volte e me diga o que você acha.” Ele estava tão certo de si mesmo que até a graxa em seu rosto estava presunçosa.

“Tudo bem Vinny, mas eu estou te avisando, eu gosto de dirigir mais rápido do que qualquer coisa que você já viu,” eu disse dando à ele o dinheiro pelo renascimento do meu carro.

Vinny era um mágico. O vento parecia que estava tentando arrancar meu cabelo pela raiz, se fosse possível. Eu estava gritando por uma rodovia deserta em algum lugar ao Norte de Nova York. Eu podia ir a pelo menos cem milhas por hora, que era cinqüenta a mais do que eu já havia feito um carro andar antes. Vinny tinha adicionado outra marcha ao câmbio, então eu podia voar pelas estradas com ele em quarta marcha. Isso era revigorante.

Eu amava arrancar o carro pelas curvas e longos trechos retos. Eu voltei à cidade apenas por tempo suficiente para juntar minhas poucas coisas, e agradecer o grupo dos mágicos mecânicos que deram ao meu carro novas asas, e então eu fui embora para Pittsburgh.

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