Singularity – Capítulo 15

 

Concha

Minha máscara tornou-se minha concha. Minha concha tornou-se eu. Eu me movia como a Alice feliz, agia como a Alice feliz, ria, falava, dançava e comprava como a Alice feliz. Ninguém sabia ou nem suspeitava que a Alice feliz foi reduzida a pó.

Eu queria dizer à eles, compartilhar a dor de perder Jasper, mas eu não podia sem compartilhar o tamanho real de meu dom inútil. Quando eu estava com os outros, especialmente Paul, era fácil apenas confiar na força deles e imitar sua alegria. Paul estava feliz com minha escolha. Seu dom pressionava a crença de que eu tinha feito a coisa certa sobre minha concha e tornou-a ainda mais forte. Não me importava que fosse a felicidade e o prazer de Paul, seu dom deixava-me fingir que eram minha felicidade e prazer.

“Há uma diferença enorme entre Londres e Paris,” minha concha reparou quando cruzamos o rio Sena.

“É como dia e noite para mim,” respondeu Annette. “Cada prédio e placa na rua tem uma beleza própria em Paris. Verdadeiramente, a cidade das luzes,” ela suspirou.

Londres, Lisboa, Madri, Toulouse, Bordeaux, Lyon, Paris. Minha concha correu pela lista, e as claras recordações. Passamos três meses em cada e agora eu falava português, espanhol e francês. Visitamos museus, castelos e velhos amigos do clã. Cada cidade continha uma mágica para mim que a concha podia ver mas não tocar realmente. Era um desperdício patético.

“Você quer praticar de novo hoje a noite, Alice? Você poderia ser uma bailarina de primeira se quisesse, você sabe,” ela disse enquanto me trazia de volta das memórias de outros lugares. Ela sorriu orgulhosamente para mim. Ela estava certa, a concha era quase tão boa quanto ela. Ambas apreciamos dançar nos estúdios de Paris, mas mais ainda, gostávamos de dançar nos clubes noturnos. Como Nova Iorque, Paris nunca dormia. Annette e Marianne fizeram questão de que a concha conhecesse cada vampiro disponível na Europa, e dançamos com todos eles. Era a coisa mais difícil que a concha teve que fazer, ter conversas agradáveis e desinteressantes com pretendentes em potencial.

“Sim, eu adoraria isso,” a concha sorriu de volta, “precisamos mesmo partir em breve?” Parisienses eram um tanto deliciosos.

“Há tanto ainda para ver. Além do mais, não podemos ficar aqui para sempre, a população já está estressada.” Havia cinco clãs atuais em Paris e eles brigavam constantemente. A paz de Nova Iorque era um tributo a liderança de Paul.

“Tem certeza sobre Berlin?” Hitler deixava minha concha nervosa. As visões estavam ficando mais claras.

“Não se preocupe. O que eles podem fazer contra nós?” Marianne me repreendeu. Elas estava certa, claro. Eles todos estavam certos de que meu medo de Hitler era infundado. Ele tinha muito de vampiro em sua conduta e a maioria dos outros o viam como um líder forte e bom.

“Mais duas semanas é tudo de compras que podemos aguentar,” lembrou um Gregorio muito entediado, “juro que vou entrar em combustão espontânea se ver outro desfile de moda.” Ele odiava fazer compras mais que qualquer outra coisa e ele também odiava Paris mais que qualquer outro lugar.

Bruxelas, Helsinki, Berlin. Ficamos apenas três semanas em Berlin porque nem eles puderam aguentar por muito tempo. A cidade estava incrivelmente opressiva, então nos mudamos rapidamente. Zurique, Milão, Toscana, Bologna, Roma.

A concha aguentou firme. Agora falava alemão, sueco e italiano.

“Você devia ir conosco, Alice. Eles vão querer te conhecer, e eles não são tão ruins assim.” Marianne mentiu, quase implorando para que eu os acompanhasse. Se eles não eram tão maus, por que ela estava tão nervosa?

Estávamos em Roma e era hora de ir ver os Volturi. Todos eles tinham tentado me levar a cidade de Volterra, mas a concha segurou firmemente à crença de que não deveria ver os Volturi ainda. Além do mais, meus amigos insistiram em ir primeiro ver a Missa de Páscoa do Papa, o que não era exatamente um bom sinal. Se nada de ruim iria acontecer na pequena cidade de Volterra, porque eles insistiram absolutamente em ir à missa com o Papa de antemão?

“Eu só não quero conhecer os protetores das leis ainda. Eu violei tantas leis que ele podem não gostar de mim, e isso é constantemente mortal — ou assim vocês me disseram,” minha concha os lembrou.

Gregorio era uma enciclopédia habitual quando se tratava dos Volturi, e a concha tinha ouvido todas as suas proezas dos últimos mil anos.

Minha concha não estava com medo de que não gostassem dela, mas sim que ele iriam gostar demais. De acordo com Paul e Gregorio, os Volturi tinham o hábito de colecionar vampiros com dons e o meu dom, o verdadeiro, seria muito desejável para eles. Paul, que parecia entender que era capaz de saber muito mais do que sobre dinheiro, apoiou a decisão de ficar longe deles. Aparentemente, ele não queria me perder.

Mais importante, as figuras brancas e geladas que a concha viu nas visões assustaram-me profundamente. Eram macabras, bem pior até que os monstros que os humanos criaram.

“Tem certeza que quer ficar aqui sozinha?” Marianne atormentou-me.

“Sou perfeitamente capaz de fazer compras sozinha,” minha concha respondeu com aborrecimento exagerado.

“São as compras que me preocupam,” riu Marianne. “Você só tem alguns milhões sobrando, então não exagere.”

A concha adulou-se pois estava com o hábito de exagerar nas distrações que a mantinham inteira. A concha tinha gostado muito das distrações da Europa e se não fosse pela dor que minhas partes despedaçadas sentiam constantemente, as memórias dessa viagem teriam sido maravilhoras. Como sempre, eu me contorci com a dor enquanto a concha continuava sorrindo.

“Essa é a primeira vez que te deixamos sozinha?” Perguntou-se Paul. “Sim, acho que é. Eu realmente não tinha notado antes disso quanto você parece ficar por perto. Talvez devêssemos adotá-la oficialmente,” ele se atreveu. Durante os últimos dezoito meses, Paul havia pressionado a concha para juntar-se ao clã, mas minha concha e eu esquivamo-nos da opção.

Mas, o que mais resta para mim? Não seria melhor, mais fácil, dessa forma? A concha silenciou rapidamente a agonizante alegação.

Se a concha algum dia se juntasse ao clã, faria-o sem o impulso de Paul. Seu dom de liderança mantinha-me inteira, mas também evitava que eu finalmente me comprometesse com eles. A concha e eu não seriamos forçadas.

“Estou ficando meio velha para adoção,” isso respondeu secamente. “Já tenho doze anos.”

“Mas você é tão fofa e irritante quanto qualquer criança que já vi,” sorriu Gregorio enquanto iam saindo.

A concha foi com eles até as montanhas ao redor de Volterra e então passou a noite no campo. Estava acostumada a fazer coisas durante a noite, mas quando a luz do dia viesse, minha concha e eu ficaríamos presas em qualquer lugar que pudéssemos encontrar. A Itália era irritantemente ensolarada.

Sozinha. Dois dias.

No amanhecer, a concha encontrou um lugar coberto para se esconder. O lugar era uma velha capela em uma colina rochosa. As catacumbas subterrâneas no subsolo eram perfeitas. Não importava muito onde a concha se encontrava porque já tinha visto os espetáculos, igrejas, museis, lojas e artefatos que queria.

Sozinha.

Não era bom. E a concha não podia sair até o anoitecer.

Noites eram assim também, enquanto dois casais de amantes iam fazer o que casais de vampiros fazem melhor — e continuamente — a noite toda. Minha concha tinha visto a Europa de noite por dezoito meses agora. Tinha vagado pelas ruas romanas e pelo campo pelos últimos quatro meses sozinha. Tinha ido a todas as cidades menores e nadado muitas noites no Mediterrâneo. Até tinha comido lá. Marinheiros. Eles eram grandes e satisfatórios, mas tinham muito gosto de peixe e odiávamos frutos do mar. A concha escalou os Alpes, viu cada catedral na Europa e até explorou o subsolo das cidades européias antigas longas noites. Fez tudo que podia para distrair minha mente do que os outros estavam obviamente fazendo.

Hoje, contudo, a concha não conseguia pensar em nada para fazer.

Sozinha. Visões podem surgir.

Dor pode romper a concha.

Ou pior, esperança.

O que restava de mim lembrou-se da primeira vez que a concha quase rachou, quando esperança quase a corroeu. Era de noite, então a concha estava vagando pelos arredores de Berlin, sentindo-se estranhamente inquieta. A cidade tinha esse efeito nas pessoas esses dias.

A concha parou a memória que os pedaços de mim queriam ver novamente. As memórias que traziam a vagarosa esperança. Vagarosa esperança trazia dor. A concha parou a dor.

Entretanto, meu coração partido venceu a batalha e a memória veio inundando contra a vontade de minha concha.

Carlisle e Esme estavam dançando uma peça clássica em seu salão enorme quando uma batida suave na porta os parou. Eles foram ver quem era, amarrotando divertidamente os cabelos e roupas um do outro para parecerem um pouco desarrumados, como um casal humano. Quando abriram a porta, Edward estava lá parado, seus olhos presos em seus pés. Quando ele olhou para cima, seus olhos estavam negros de fome. A alegria deles ao ver Edward de olhos pretos parado ali era quase incomensurável.

“Edward! Ah, Edward,” eles exclamaram e puxaram-no para o abraço de seus braços de pedra.

“Eu sinto tanto!” ele soluçou. Ele mal podia olhar para eles. “Eu estava errado, tão errado. Por favor, perdoem-me Carlisle e Esme, por favor.”

Eu, não a concha, queria ficar brava com ele pela agonia que os tinha causado,  Edward estava totalmente lamentável em seu desespero, desamparo e vergonha, e até eu não pude ficar brava. Eles, claro, o aceitaram de volta sem hesitar, e a alegria da família estava completa novamente.

Não era a redenção dele ou o amor deles que machucava mais. Era o fato de que ele teve esperança. Meus olhos e vida agora espelhavam os dele, mas para mim não havia casa, família ou esperança.

A esperança doía. Novamente.

O conhecimento de que em algum lugar minha família estava esperando por mim apunhalava-me o coração. Eu não podia ir até eles, não agora que eu jamais estaria completa.

Foi a única vez que eu quase voltei atrás; a única vez que senti uma emoção verdadeira. A concha era mais grossa agora, e impedia-me de sentir basicamente qualquer coisa a não ser a dor anestesiante.

Agora, sozinha aqui nesse lugar morto, tudo que podia fazer era esperar que a concha pudesse manter-me no lugar por dois dias até meus amigos voltarem.

Sentamos na pedra debaixo da igreja, abracei os joelhos e ouvi a música que minha memória resgatou. Musica podia algumas vezes encher minha mente quando outras distrações não podiam.

Minha concha tentou ver Volterra novamente e a reunião que aconteceria essa noite. Preferiria ver as figuras fantasmagóricas do que arriscar com as memórias. Dessa vez a visão veio.

Paul e Gregorio deram presentes aos três fantasmas enquanto suas esposas ficavam próximas. O cômodo era feito no estilo toscano com talhas douradas e murais complexos que cobriam as paredes. Tecidos ricos eram pendurados em todo lugar e no centro de tudo ficavam três tronos, também dourados. Rivalizava qualquer catedral que a Europa ostentava. Mas, isso era uma visão do inferno e não do paraíso. Enquanto o clã de Paul usava roupas elegantes da Paris moderna, as figuras nos tronos e ao redor deles utilizavam as mesmas capas que os pintores normalmente davam ao diabo. Paul falaria com os vampiros e nada poderia ser escondido. Annette havia dito que os Volturi sabiam de tudo que aconteceu em sua vida. A concha mal podia imaginar o horror de ter esses vampiros fantasmagóricos de olhos nublados sabendo de tudo. Era por isso que ela não poderia ir jamais, porque sabia que jamais seria permitida partir. A concha e eu éramos aberrações entre os vampiros, uma criatura a parte e totalmente sozinha. O pensamento trouxe ainda mais desespero.

A concha forçou a emoção de volta para o fundo e tocou música em minha mente até que o clã voltou.

Quando retornaram na noite seguinte, a concha ainda estava cantando para espantar a dor. A concha os saudou calorosamente e conversou com eles até que tomamos um navio para Istambul. A concha adorou a paisagem do mar Egeu e as maravilhas de Istambul. O clã estava relaxado e feliz, e em resposta, minha feliz concha revelava-se na viagem. Ela nunca perdia o compasso.

Istambul, Damasco, Jerusalém, Alexandria, e Cairo.

Aprendi a falar turco, árabe e um pouco de hebráico.

Nós não ficaríamos muito no Cairo, pois o sol era indescansável aqui. Ficamos dentro de casa, visitando o amigo de Paul, Amun, e sua esposa Kebi. Eles eram muito hospitaleiros e maravilhosos anfitriões, mas Kebi parecia desconcertada com as mulheres do clã de Paul. Ela raramente saia de sua sala de visita ou da cozinha ou falava conosco. Todos tentamos ser abertamente amigáveis mas ela não correspondeu. Na verdade, ela parecia não ter personalidade própria. Talvez, ela guardava tudo para seu parceiro.

Na segunda noite, Paul, Gregorio e Amun tinham começado a compartilhar suas várias aventuras uns com os outros em uma competição benigna. Cada um estava tentando ser melhor que o outro com suas histórias. Logo, o tópico da mais recente guerra do clã surgiu, assim como os meus olhos, mais uma vez incomuns.

“Ela simplesmente apareceu em Nova Iorque com esses olhos amarelos. Sem criador, sem clã e sem humanos em sua dieta. Era verdadeiramente a coisa mais estranha que eu já tinha visto,” riu Paul enquanto se lembrava. “Ela bebia o sangue de animais, pode imaginar? Ela é uma das melhores guerreiras que nós já vimos e ela quase desperdiçou isso.” Ele estava balançando a cabeça com a memória incrédula.

Minha concha tentou não ouvir. Aquela memória era divertida para ele mas intolerável para mim. Dor ondulou através do meu despedaçado ser debaixo da concha.

A concha tomou consciência da próxima história de Amun, uma que continuaria  a coisa de tentar se melhor que o outro, coisa que parecia ser normal no relacionamento de Paul e Amun.

“Então, você conhece Carlisle?” disse uma voz sussurrada ao meu lado. Kebi tinha silenciosamente vindo até mim e sua cara sorridente estava a um passo da minha.

Ambas a concha e eu congelamos. “O que você disse?” Era rude perguntar isso assim abruptamente, mas o choque de ouvir aquele nome acabou com qualquer necessidade de delicadezas. Nem a concha nem os pedaços embaixo dela poderiam aguentar falar sobre ele.

“Carlisle Cullen, o médico, ele te ensinou a caçar apenas animais?” Ela perguntou discretamente com olhos curiosos.

“Sim,” eu soltei antes que a concha pudesse parar e pensar. Era verdade; a visão dele havia me ensinado o agora perdido segredo de permanecer um bom vampiro.

“Ele está bem? Ele é o melhor e mais bondoso de nossa raça,” ela sorriu com alguma memória, “e eu penso nele frequentemente.”

“Você o conhece?”

“Sim, quando ele morou em Volterra por tantos anos, Amun e eu nos tornado muito próximos dele. Como ele está?” Sua voz suave era totalmente sincera.

“Bem. Ele está muito bem.” Minha concha e eu olhamos em volta. Nenhum dos homens estavam olhando para mim, e as garotas estavam no telhado aproveitando a brisa noturna.

“Ele tem uma parceira e um filho, agora, e eu acho que ele está muito feliz,” a concha gaguejou. Ela sorriu mais largamente e suspirou contente.

“Fico muito feliz em ouvir isso. Ele esteve sozinho por tempo demais, sabe? Por que você parou de comer apenas animais, tornou-se demais para suportar? Meu Amun acha que isso não é saudável e enfraquece ambos o corpo e a mente,” ela disse inclinando-se para ainda mais perto de mim.

“Tornou-se muito difícil,” minha concha respondeu estarrecida.

Médico?

“Você disse que ele era um médico? Como isso pode ser?” Eu nem podia imaginar um vampiro sendo capaz de tocar tantos corpos humanos, especialmente os que poderiam estar sangrando.

“Ele nunca provou sangue humano, então ele é quase imune depois de trezentos anos,” ela afirmou com olhos arregalados. A história ainda era inacreditável para ela como era para mim.

“Trezentos anos? Isso é incrível! Ele nunca comeu um humano em trezentos anos?” Ela confirmou, olhos arregalados. “Você sabe onde ele está agora?” Perguntei rapidamente. A concha rachou um pouco, e os pedaços partidos de mim mesma irromperam para fazer a pergunta.

“Em algum lugar do seu país, no norte, eu acho. Ele trabalha por mais ou menos cinco anos, e então se muda. Ele normalmente trabalha em hospitais, se não mudou seus modos.” De repente, Amun chamou o nome dela bruscamente e ela se foi para o lado dele num instante. Ele não gostava que ela falasse conosco pois éramos independentes demais para o seu gosto. Normalmente, a concha ficaria brava com ele, mas depois da conversa, não sabia dizer o que ela sentia. A concha não queria nada dessa conversa, mas eu queria saber muito mais. A concha ganhou.

O tópico de nossas personalidades bastante extrovertidas era uma fonte constante de divertimento e irritação para Amun. Íamos quando e onde o sol nos deixava ir sem pedir permissão. Nos intrometíamos em suas conversas e tínhamos opiniões fortes sobre quase qualquer assunto. Ele não gostava de como agíamos, falávamos, pensávamos ou nos vestíamos, e ele não nos queria nem um pouco perto de sua esposa. De acordo com Amun, nós fazíamos tudo errado.

Na verdade, fizemos disso um hábito, para o bem de Kebi.

Mesmo coisas simples como ballet e música o ofendiam. Ele parecia como se estivesse tendo um ataque cardíaco (nada fácil quando você não tem um coração funcionando) quando Anette e eu mostramos a ele alguns passos de ballet. Marianne queria fazer o Charleston ou, ainda melhor, o Tango com Gregorio, para ele. Amun teria entrado em combustão espontânea.

Nosso comportamento pobre estava sendo discutido novamente em nosso último dia de visita. Nós, damas, havíamos acabado de retornar de nossa última saída. Os robes sufocantes que iam dos pés à cabeça, que as mulheres aqui usavam, permitiram que fossemos onde quiséssemos porque ninguém podia ver nossas peles debaixo deles.

“Sim, Amun,” suspirou um Gregorio exasperado, “todas as mulheres nos Estados Unidos, e em quase todo o resto do mundo para ser exato, agem como elas.”

“Realmente, não nos incomoda nem um pouco. Elas são nossas parceiras, pelo amor de Deus. Elas não farão nada para nos machucar e eu adoraria ver o que aconteceria com qualquer um que tentasse machucá-las. Você deveria vê-las lutar, principalmente a pequena Alice. Ela é quase imparável.” Eu sorri orgulhosamente da avaliação de Paul sobre minhas habilidades.

“Ela é pequena e muito rápida. Parece que você está tentando lugar contra uma combinação entre uma impressionante cobra e um furão, só que mais rápida,” adicionou Gregorio. Minha concha e eu ambas ficamos um tanto irritadas com sua pequena comparação.

“Vocês estão falando sobre nós de novo?” perguntou uma Marianne feliz, enquanto entrava na sala. Ela adorava irritar Amun mais que qualquer um.

“Vocês saem como se fossem donas da cidade. Vocês podem expor a todos nós, ou se machucarem. Eu não serei responsável por isso,”  repreendeu Amun.

“Só queríamos um último passeio de compras e outra chance de tirar mais algumas fotos,” disse Annette. “Foi inofensivo, e somos muito cuidadosas.”

“Vocês não são nem inofensivas nem cuidadosas. Vocês são cheias de idéias nocivas e são as mulheres mais descuidadas que já conheci. Vocês são tão diferentes do que é normal e correto, não consigo me acostumar com isso.”

“Você só conhece um tipo de normal, Amun,” disse Gregorio. “Há outras formas de comportamento normal lá fora. Elas não são tão diferentes de qualquer outro vampiro.”

“Nós não somos nem um pouco diferentes do que sempre fomos,” adicionou secamente uma Marianne aborrecida. “É assim que sempre nos comportamos, e não vamos mudar só porque estamos aqui.”

“Você já esteve em Paris ou Bruxelas?” minha concha perguntou inocentemente, “Você devia ir, responderia muitas de suas perguntas. Você pode até descobrir a razão do porque nos comportamos assim.” Eu teria adorado ver Amun em uma dessas duas cidades.

Paul me deu um olhar de aviso, mas ele tinha um sorriso em seu rosto. Sim, Amun em Paris seria algo para se ver.

“Já que não podemos mudar, talvez seja melhor que eu fique aqui,” Amun respondeu bruscamente.

“Na verdade, podemos mudar. Ou pelo menos Alice pode. Nós vimos,” declarou Annete, “então, talvez, haja esperança para você.”

“Sim,” confirmou Marianne. “Talvez devêssemos ficar mais para que Alice possa conhecer Kebi e você um pouco melhor e ajudá-los a mudar alguns de seus modos.” Ela sorriu e piscou para mim, mas então, seu rosto ficou perplexo. Ela olhou como se quisesse me fazer uma pergunta, mas pensou melhor e continuou a sorrir para Amun.

“Já basta, vocês três. O pobre Amun não precisa tentar ir contra todas as três de uma vez.” Paul continuou com o tom leve, mas o aviso estava lá. Ele não queria fazer de seu velho amigo, um inimigo.

Era nossa última noite mesmo, então deixamos para lá.

Decidimos viajar a noite, a pé pelo norte da África junto à costa. Era estranhamente belo de uma forma irregular, ou teria sido se não tivéssemos visto tantos soldados aqui. Estávamos quietos todo o caminho porque todos finalmente perceberam que minhas visões estavam se tornando reais. Precisaríamos tomar uma decisão sobre onde ir e rápido, embora Gregorio fosse a favor de ficar. Guerras eram um banquete para vampiros.

Passamos o dia em Tripoli e foi aí que Marianne me emboscou.

Estávamos em um protótipo de hotel de tijolos de lama, e eu tinha ido sentar em uma varanda no telhado e aproveitar o calor do dia, minha pele estava bem morna aqui no deserto. Marianne juntou-se a mim no telhado com um olhar determinado e um tanto hostil em seus olhos. Ela apenas parou lá, rígida e de braços cruzados sobre o peito e olhos me encarando.

“O que é?” Ela exigiu.

“O que é o que?” A concha respondeu rindo.

“Alice, pare com isso. Diga-me o que há de errado, diga-me o que aconteceu com você.” Ela estava séria, um tanto ardente. Minha concha aguentou enquanto eu entrei em pânico. Eu não podia me esconder da dor se ela quisesse que eu a compartilhasse.

“Não sei do que você está falando. Nada aconteceu comigo.”

“É o que eu quero dizer, nada aconteceu com você. É como se você fosse uma caricatura de si mesma. Eu notei há alguns meses, mas pensei que era a viagem e os novos lugares, mas então percebi que está diferente de alguma forma. Antes de você vir para a Europa, você conseguia se adaptar, ser alguém novo – mudar. Você é a mesma pessoa que apareceu em Londres.” Seu tom era acusador.

“Nós não mudamos, lembra? Estamos congelados. Essa sou eu congelada.”

“Não, não é você de forma alguma. Você ri, compra, dança e fala, mas você não é você. Só me diga uma coisa, por que você bebe sangue humano agora? Se nossa amizade significa qualquer coisa, diga-me a verdade.”

Eu podia ignorar tudo menos aquilo. Nossa amizade. Era a única coisa que restava de bom, a única verdade restante. Eu jamais parecia capaz de ser verdadeiramente próxima de alguém, mas mesmo distante como eu estive do clã, eles permaneceram meus amigos mais verdadeiros.

A concha estilhaçou-se e meu ser  despedaçado vazou para fora.

“Eu vi meu parceiro.” Cuspi. Disse as palavras com o mesmo tom moribundo que uma pessoa contaria de sua doença, só que com mais ódio.

“Como é que é?”

“Eu disse que vi meu parceiro. Seu nome é Jasper e eu combino com ele como você combina com Gregorio.” Era a única forma de explicar.

“Bem… Isso é maravilhoso… Mas…” Ela nunca ficou tão sem palavras, e o olhar na cara dela lembrou-me do olhar que Makenna me deu no dia que aprendi que era uma vampira. Marianne estava totalmente perdida e confusa.

Por que você está aqui?” Ela soltou. “Se você sabe onde ele está, você precisa ir até ele. Eu não entendo, Alice, isso deve ser maravilhoso, não deve?”

“Não.”

“Por que não?”

Dor. Trouxe meus joelhos até o peito para tentar confortar meu ser ferido.

“Alice?”

Dor. Eu não podia responder ainda porque as palavras se rebelavam em minha boca.

“Alice, você está bem?” Ela estava ficando histérica. Se eu não respondesse, ela iria buscar ajuda.

“Ele…encontrou…outra…parceira…e–” Eu estava tremendo demais para terminar.

As mãos dela agarraram meus pesados ombros, e de repente, eu estava envolta em seus braços de pedra enquanto ela tentava me acalmar. Depois do que pareceu uma eternidade, ela soltou meu corpo e segurou meu rosto firmemente para olhar para mim. Eu tentei desviar o olhar, mas o rosto dela estava a apenas centímetros do meu, então eu simplesmente olhei para os olhos compreensivos dela.

“Ah, Alice, eu sinto tanto.” Saiu um pouco mais alto que um sussurro. Eu sabia que ela não entendia como eu havia visto meu parceiro e o deixado, mas ela estava disposta a aceitar minha dor como era.

De repente, era demais, e a concha desintegrou-se. Não havia mais controle, e não havia mais proteção. Eu não aguentava mais. Minha dor, espelhada nos olhos dela, retorcia-se e apertava-se ao meu redor e começava a esmagar o tantinho de mim que ainda restava.

Eu senti meu corpo rosnar e pesar contra ela e Marianne se afastou. Era total instinto e dor, e eu não senti nada além da necessidade de sair dali para me proteger. Eu saltei do telhado e comecei a correr junto à costa do Mediterrâneo. Não ouvi ou vi coisa alguma enquanto corria, a necessidade de escapar me consumiu. Eu nem parei por causa do sol, embora fosse difícil para qualquer humano me ver. Finalmente, eu virei para o deserto, onde alguns humanos se aventuravam.

No anoitecer seguinte, eu estava perto de uma cidade humana, uma antiga cidade de pedra. O cheiro de tantos corpos acionou a queimação em minha garganta mesmo que eu não estivesse verdadeiramente com sede. Eu fui até os telhados para procurar uma possível vítima, alguém velho sozinho e indesejado; esse havia se tornado meu hábito.

Em vez disso, cruzei com um jovem casal sentado em um pátio fechado. Eles eram meros adolescentes. Eles estavam sussurrando, e nervosos, obviamente não deviam estar juntos mas muito apaixonados para ficarem separados. A visão indesejada que os acompanhou me disse que eles iriam se casar em breve. Eu os odiei com uma fúria que pareceu me queimar. O amor e a felicidade deles era tão evidente, e parecia zombar da minha dor. Mesmo quando o casamento feliz passou em minha cabeça, eu me lancei sobre eles. Cobri a boca dele enquanto a bebia e então, alguns segundos depois, acabei com os esforços dele, nenhum deles teve tempo de gritar. Enquanto bebi o sangue deles, minha fúria diminuiu, a visão mudou e o casamento tornou-se uma procissão de enterro com mães desoladas e pais chorando incontrolavelmente enquanto seus filhos eram enterrados na areia seca do deserto.

O que eu fiz?

Havia restado um tanto suficiente da boa Alice para que o horror de minhas ações me abatessem.

Isso não foi um acidente ou necessidade de sobrevivência; isso foi assassinato. Eu havia matado duas crianças inocentes por causa de um ódio desmerecido. Agora eu era o monstro, a besta que eu tanto detestava e temia.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s