Singularity – Capítulo 1

 

Garotinha Perdida

De algum lugar muito distante, alguém estava chamando meu nome. Eu podia ouvir a frenética menina gritando para mim, ” Alice! Alice! Você tem que acordar! ” Sua voz misturada com a visão recuada que me engolia. Eu tentei sair da visão, mas eu não podia deixar completamente as imagens e sons rodopiando que tinham me tornado impotente novamente. Lentamente, a visão da família na carroça, os gritos, e o rio revolto enfraqueceu e me dei conta de onde eu estava.

A voz era da minha irmã, e eu estava deitada de barriga na estrada de terra. Eu sabia disso por causa do sabor misto de sangue e terra em minha boca. Outras vozes frenéticas estavam agora perceptíveis na área ao nosso redor.

” Ela está  bem?” , Perguntou uma mulher cuja voz estava estridente de medo.

” Ela precisa de um médico? O que há de errado com ela? ” Esta era uma voz de homem que parecia com raiva ou em pânico, eu ainda não podia dizer qual.

Eu virei e me sentei. Pelo menos não havia nenhuma dor dessa vez. Eu olhei para a família no vagão e fiquei imediatamente chocada ao ver que eles pareciam ter estado da minha visão. Eu os encarei em mudo reconhecimento.

” Querida, você  está machucada?” A mulher estava me perguntando. Eu não podia responder, eu só olhava para seus rostos familiares.

” Minha irmã  tem ataques às vezes, como epilepsia ou algo assim. ” Eu era grata pelas mentiras rápidas e habilidosas de Cynthia. ” Ela vai ficar bem, senhora. Não se preocupe senhor, eu vou levá-la para casa, para a nossa mãe. ” De repente, ela e o homem estavam me ajudando a ficar de pé. Meus joelhos queimaram com os arranhões novos, e meu vestido estava rasgado onde eu tinha raspado através do material. Mamãe ficaria furiosa.

Muito rapidamente, a família subiu de volta em sua carroça velha e foi na direção do rio próximo ao porto. Eu queria avisá-los e fazê-los parar, mas o que poderia fazer uma garota de treze anos de idade? Eles nunca me escutariam, e eu não estava sempre certa do que eu via nessas visões – não mesmo. Era como tentar discernir uma cor em meio a névoa profunda que tínhamos aqui em Biloxi o tempo todo. Nunca havia o suficiente para saber ao certo o que estava acontecendo, apenas o suficiente para me colocar em um transe, aterrorizar minha mãe, e enfurecer meu pai.

“Alice?” Cynthia estava hesitante. “Alice, temos que te levar pra casa.” Seus olhos ainda estavam cheios de medo do meu quase acidente – o acidente que eu nem sequer me lembro.

Sua voz me trouxe completamente de volta ao presente. Eu podia sentir o calor úmido do dia pressionando na minha pele molhada. A maior parte dos meus braços e pernas estavam agora incrustado com a terra da estrada que grudou ao suor pegajoso que sempre era uma parte dos dias de verão aqui. Felizmente, o meu longo cabelo estava em duas chiquinhas, por isso não estava embaraçado e grudando na minha pele também. Meus joelhos, mãos e lábio inferior estavam sangrando.

“Desculpe Cynthia, eu sinto muito. Isto não deveria ter acontecido, eu sinto muito. ” Eu estava prestes a chorar. Como eu iria conseguir passar por mamãe desse jeito?

“Não se preocupe com isso Alice,” ela murmurou. Não era justo com ela e eu sabia disso. Nenhuma criança de dez anos deveria ter que ser tão responsável por sua irmã mais velha. Eu não deveria ter pedido a ela para vir, mas depois que eu acordei, eu estava tão feliz que ela estava aqui.

“Quão ruim foi?” Eu perguntei em um sussurro. Eu não tinha certeza se eu queria saber.

“Você apenas parou. Parou bem na estrada com a carroça chegando! Eu quase não te empurrei a tempo”, ela quase chorou em sua frustração. Ela me olhou por baixo da sua pesada e escura franja e suspirou: “O que foi dessa vez?”

“A família”, eu finalmente falei sufocada. Esperançosamente, eles estavam bem. Com sorte, eu estava errada novamente. Eu não disse mais nada, e ela não perguntou mais sobre isso enquanto caminhamos lentamente para os fundos da nossa pequena casa. Eu tentei lembrar o que estávamos fazendo antes da visão. Vovó. Tínhamos ido ao túmulo dela no cemitério próximo. Deveria ter sido uma viagem tão fácil nesta manhã quente de agosto. Eu só precisava ver a sua sepultura novamente e colocar flores sobre ela. Nós corremos de volta para casa, rindo da simples alegria de correr. Então, a visão tinha me atingido, e ela deve ter me empurrado para fora do caminho da carroça enquanto eu estive no que mamãe chamava de estupor.

A memória da viagem trouxe de volta o sentimento maçante de perda que pesava em meu coração naquela manhã. Eu sentia tanta saudade da vovó. Eu era sua xará e sua gêmea, ou assim a família dizia. Nós éramos tão parecidas, era quase assustador. Não muitos na família adivinhavam o que mais nós compartilhávamos, e essa verdade era realmente assustadora – como um pesadelo.

Ela tinha morrido em um dos manicômios aqui perto. Suas visões a tinham deixado louca antes de eu nascer, mas não foi até dois anos atrás que ela estava tão ruim que teve de ser “afastada” para seu próprio bem. As memórias do meu tempo com a vovó eram ambas reconfortantes e assustadoras. Ela era a única pessoa que eu podia realmente confiar, mas a sua loucura, minha futura loucura, assustava-me mortalmente. Eu estava agora, aos treze anos, quase tão ruim quanto ela estava aos quarenta anos.

“No que você está pensando?” Cynthia perguntou. Seus olhos estavam arregalados e preocupados.

“Não se preocupe, Cynthia, eu não vou passar por outra visão, pelo menos eu não acho. ” Como eu queria que eu pudesse dizer. Eu poderia ser normal se eu pudesse prever quando essas coisas fossem acontecer. Eu poderia fazer amizades e participar de festas, estar com outras garotas sem assustá-las. Eu queria dançar balé novamente e sentir meu corpo girar e voar. Como estava, eu não acho que poderia até estar na escola este ano também. Eu queria tanto uma vida normal de novo que isso era uma dor constante.

“Eu odeio a minha vida! Eu queria que nunca tivesse nascido!” , eu gritei para Cynthia, para o mundo, e Deus, tudo de uma vez.

“Não diga isso! Você nunca diga isso Mary Alice! ” Cynthia gritou em resposta. Eu tinha assustado ela. Novamente.

“Mas eu queria, Cynthia, eu sinceramente queria. Você é a única que me aceita. Mamãe me olha toda estranha agora também. Desde que o médico disse que eu tinha problemas mentais, ela olha para mim como se eu não fosse mais filha dela. ” Eu deveria ter parado por aí, mas eu tinha que colocar tudo pra fora. Minhas lágrimas estavam agora fluindo abundantemente e minha respiração vinha em ofegos rasgados enquanto eu falava a verdade aterrorizante da minha vida. “Papai me odeia, ele realmente odeia, e você não diga o contrário. Ele pode ter parado de me bater, mas ele ainda me odeia. Eu não tenho mais ninguém, Cynthia. Eu não posso sair de casa de jeito nenhum. Apenhas olhe para mim! Estávamos fora por apenas vinte minutos e apenas olhe para mim! Eu não posso ir à escola. Eu não posso ir para a aula de balé. Nenhum dos meus amigos sequer olha para mim. Eu só quero uma amiga para conversar, para brincar de se vestir e fazer o cabelo uma da outra e contar segredos. Eu quero ser feliz novamente. Eu quero ser como eu era antes… antes… antes que isso começasse a virar uma bagunça. ” Eu bati na minha cabeça com força o suficiente para que pudesse machucar.

“Mary Alice Brandon! O que aconteceu com você? ” A voz irada de minha mãe me deixou congelada no lugar. Ela tinha estado pendurando as roupas para secar no sol, e ela olhou para a minha aparência com reprovação. Eu sabia como eu devia estar parecendo, e pagaria por isso.

“Ela apenas caiu na estrada, mamãe. Ela não fez nada de errado. “

Mamãe não acreditou na mentira de Cynthia, ela tinha visto isso muitas vezes nos últimos quatro anos. Na primeira, ela tinha ficado aterrorizada. Era a sua mãe que estava no cemitério. Ela rezou e chorou para que a maldição que tomou conta de sua mãe não caísse sobre mim. Conforme os anos passaram, no entanto, ela foi forçada a aceitar que eu era igual a vovó, mas pior, muito pior. Agora mamãe estava distante de mim. A única pessoa que poderia me confortar em seus braços, aquela que eu precisava tanto agora que quase me rasgava em duas, apenas estava de pé lá com raiva, com os braços cruzados e os olhos de ódio. Eu estava sozinha.

“Alice, vá para o seu quarto e se limpe. E então fique lá. Acabou, isso acabou, está me ouvindo! Nada mais de passeios” .

“Mas, mamãe, por favor. Estou tão cansada de casa. Por favor, apenas deixe-me sentar na varanda hoje. Está tão claro lá fora, e eu quero ficar no quintal. “

“Você vai para cima e se limpar. Seu pai e eu precisamos conversar. ” Ela subitamente parecia cansada e abatida. Ela parecia ter uma centena de anos, e a culpa para o que eu estava fazendo com ela e minha família me bateu com força enquanto eu corria para dentro de casa.

Eu estava sentada, desenhando de novo na minha cama. Eu tinha começado a desenhar para me ajudar com as visões, mas isso tinha deixado mamãe e papai tão chateados que agora tudo o que fazia era desenhar a vida que perdi. O meu quarto decorado com fotos de amigas em vestidos coloridos, festas que eu não ia há muito tempo, e lugares que eu já não podia ir ver. Isso me fazia sentir melhor ter algo para lembrar minha vida antes que as visões tivessem chegado.

Eu ouvi o tum-tum-tum do meu pai na escada. Eu sabia que isso aconteceria sem a necessidade de uma visão para me dizer. Os passos do papai eram muito pesados e eu sabia que ele estava irritado antes que ele viesse à minha porta e a abrisse com força. Papai odiava Vovó e seus ataques estranhos. Ninguém odiava as coisas que não eram normais mais do que meu pai, e assim agora ele me odiava. Nem sempre foi assim, e as memórias de abraçá-lo e dar beijos depois que ele chegava em casa do trabalho sempre me fez feliz. Ele não me tocava mais, exceto para me bater com uma vara por já quase dois anos. Eu teria prazer em apanhar de vara ao invés do ódio que havia substituído sua preocupada fúria.

Ele olhou para mim enquanto entrou, pegou meu desenho, rasgou o papel em dois, e atirou-o ao chão.

“O que foi dessa vez? Cynthia não me disse, ” ele rosnou entre os dentes cerrados.

“Apenas uma família em uma carroça, isso é tudo” , eu menti.

“Bem, isso quase a matou, não foi? Sua irmã poderia ter se ferido severamente dessa vez. Por que você saiu de casa?”

“Eu só queria ver de novo a sepultura e colocar flores sobre ela, porque eu sinto falta dela” , eu disse, minha voz em um sussurro. Era melhor não dizer o nome real da avó.

“Você não vê o que está acontecendo aqui, Alice? É como com ela, só que pior. Você quase morreu a duas quadras da casa. Nós não podemos ir a lugar nenhum agora. Nós não podemos deixá-la sozinha. Deus sabe disso, não podemos deixar que as pessoas vejam você. O que eles pensariam? Sua mãe está sempre chorando, sua irmã está sempre preocupada, e eu não posso viver assim. ” Ele colocou as mãos sobre o rosto e esfregou as têmporas. De repente, ele também parecia mais velho e muito cansado.

“Papai, eu sinto muito. Eu quero ser boa, eu realmente quero. Vou me esforçar mais, ” eu sussurrei, mas ambos sabíamos que não havia nada que eu pudesse fazer sobre os ataques.

“Eu sei querida, mas se esforçar mais não vai parar essas coisas. Eu vi isso com a sua avó. Você costumava ser uma alegria para todos ao seu redor” , ele estava falando consigo mesmo agora, e sua mente estava longe. “Você nunca andava em qualquer lugar, você dançava. Onde quer que você passasse, você simplesmente borbulhava de alegria. Suas tranças, elas sempre pareciam dançar com você enquanto você andava. ” Ele sorriu, mas depois ele se virou para mim e seus olhos estavam terrivelmente duros e cheios do ódio que eu me acostumei a esperar. “Você tem que ir embora agora. Eu não posso ver você passar por isso, como eu assisti a sua avó. Eu simplesmente não posso. “

Sem outra palavra, ele foi para a parede onde eu guardava todas as minhas fotos e começou a rasgá-las. Isso doeu mais do que palavras jamais poderiam.

“Não, papai, não, por favor. Eles não são sobre visões, apenas amigas e roupas e coisas assim. Por favor, papai, não!”

“Eu não quero nada de sobra. Nada do que você é. Você está partindo agora, e eu não quero nada restante de você. “

Eu senti o baque de suas palavras atingirem o meu coração mais forte do que qualquer vara jamais me atingiu. ” Que… mas… onde… porque… , ” as palavras saíam sufocada em soluços enquanto eu via no rosto dele aonde eu estava indo. Foi a pior visão de todas. A escuridão da visão encheu minha cabeça quando comecei a tremer. Escuridão, correntes, gritos e portas – muitas portas – esta foi a minha mais temida e mais vívida visão, e agora ela estava se tornando realidade.

Mamãe apareceu com os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar.

“Alice, querida, é o melhor. Vovó estava feliz lá. Eles podem ajudá-la. Querida não chore, vamos buscá-la quando você estiver bem” , ela colocou as palavras para fora entre respirações cortadas.

Não, eles não iriam. Eu podia ver isso no rosto do meu pai. Ele tinha dito a verdade quando disse que ele não me queria ou mesmo qualquer memória de mim por aqui.

Eu estava soluçando tanto agora que eu não conseguia me mexer ou enxergar. Eu só  abracei minha barriga e comecei a balançar para trás e para frente, tentando me dar o conforto que isso nunca iria oferecer.

Mamãe e papai rapidamente arrumaram minhas poucas roupas, e mamãe pegou meu ursinho de pelúcia. Eu os vi terminar e virar para mim. Meu estômago torceu em pânico, e tudo que eu podia pensar era em Cynthia. Corri para o quarto dela e tentei encontrá-la. Vazio. Desci as escadas e corri através de cada cômodo da casa. Onde ela está? Cynthia, eu preciso de você! Onde você está? As palavras queimaram minha cabeça enquanto eu as gritava várias vezes para mim mesma.

A mão forte de papai pegou meu frágil braço. “Nós a mandamos para a casa de sua tia Jenny para passar a noite. Ela não precisa estar aqui para isso. ” De repente, seus olhos estavam menos odiosos, e quase, mas não completamente, gentis. “Alice me desculpe. Eu sinto muito mesmo, mas você não pode ficar aqui. Você poderia ter morrido hoje, e ela poderia ter se ferido também. Ela precisa de sua própria vida. Isso está nos deixando em pedaços, e isso tem que parar. Esta é a melhor coisa a fazer para você e para nós” .

Ele não tinha me tocado há tanto tempo que sua mão parecia estranha contra a minha pele. Tentei abraçá-lo. Tentei me mover para perto e agarrar a sua cintura como eu fiz tantas vezes antes que a minha mente enlouquecesse, mas ele me empurrou com as mãos fortes e me levou para a carruagem. Minha mãe já estava lá, parecendo minúscula e abatida no assento. Ela sempre foi pequena, como eu, mas agora ela estava quase invisível, curvada e tremendo com suas lágrimas. Papai me pôs no meu lugar usual na parte de trás da carruagem, e eu deitei ali perdida na dor de sua traição. Eles não me queriam. A visão terrível que me assombrou muitas vezes se tornaria realidade, porque eles não me queriam mais.

“Eu amo vocês, por favor, eu amo tanto. Por favor, não me levem lá, por favor, por favor, por favor. Eu serei boa agora. Eu prometo. Por favor, ” eu estava implorando através de minhas lágrimas. O corpo da minha mãe tremeu ainda mais forte, mas nenhum dos dois se moveu ou disse uma palavra. Eu apenas continuava repetindo, até que minha voz doeu e eu já não podia fazer mais qualquer som. Eu não me movi pela hora e meia de viagem para o edifício de grandes portões na periferia da cidade. Eu estava tão entorpecida que nem percebi que a carruagem tinha parado e que papai estava falando com o homem no portão. Eu não olhei para ninguém ou para coisa alguma quando mãos fortes me levantaram do acento e me levaram para uma sala mal iluminada.

” … Sim, eu concordo com o seu médico, mas… “

” Provavelmente esquizofrenia, mas pode não ser tão ruim assim… “

” Sim, nós podemos fazer isso, mas sentimos que é melhor a família visitar quantas vezes puderem… “

” … passamos por isso … não pode ser interrompido… matar todos nós… “

” … É  claro. Faremos tudo o que pudermos… . peço-lhes que reconsiderem… . mas ela ainda precisa de vocês… “

” … não a queremos de jeito nenhum… despedaçando a nossa família… basta olhar para a mãe dela… “

“Ela é tão jovem, é uma pena… “

As vozes iam e vinham e eu não podia nem dizer quais pertenciam a meus pais e quais pertenciam os coletes brancos que me rodeavam. Não foi até eu ser levada a um pequeno quarto com uma luz elétrica pendurada no teto e uma janela pequena e escura na parede que percebi que meus pais tinham ido embora. Eles não tinham nem tentado dizer adeus.

Era pior agora. As visões vinham tantas vezes neste lugar frio. Elas não estavam mais certas do que eram antes, mas vinham com mais freqüência, agora que eu era observada, mesmo que eu tentasse ainda mais escondê-las. As pessoas aqui não me mantinham trancada como eu pensava que seria. Pelo menos era me dado um pouco de liberdade e eu estava autorizada a ir à lanchonete, andar pela sala, e sentar lá fora, mas isso era tudo. Não importa onde eu fosse, eles me observavam constantemente. A maioria deles tinham um olhar de piedade em seus rostos. Eu os odiava. Eles não falavam comigo para nada, e eu me sentia como um animal em um zoológico.

“Você gostaria de jogar algo, Mary Alice?” , perguntou uma enfermeira gentil que eu não tinha visto antes. Quase pulei da cadeira. Eu estava aqui há três semanas, e esta foi a primeira pessoa a me pedir para fazer algo com ela. Eu estava na sala apenas sentada e olhando pela janela já que não havia muito mais nada para se fazer.

” Alice… apenas Alice. ” Corrigi quando consegui superar o choque.

“Bem, Alice, eu sou Nancy, e eu amo jogos. Você gostaria de jogar um comigo?”

“Sim” , eu quase sorri de volta. Eu não tinha sorrido em três semanas, e se sentia muito estranho em meu rosto, quase como se os músculos tivessem esquecido como fazer. Ela parecia muito agradável, e a sala de repente parecia muito mais leve.

“De que jogos você gosta?” , Perguntou ela, ainda muito amigável.

“Dominó. E gosto de escravos de Jó. Você conhece? “

“Claro, querida. “

Enquanto jogamos, ela falou sobre sua vida. Eu estava tão agradecida que ela não me fez qualquer pergunta.

Eu era uma aberração, e uma aberração maluca. Eu era uma das mais novas aqui, e todos me olhavam como se eu tivesse a peste. Eu não queria provar o quanto eu realmente era uma aberração falando sobre as visões.

Jogamos várias rodadas, e eu me encontrei apreciando o jogo com essa enfermeira. Ela era uma mulher mais velha, bonita, mas não linda. Seu cabelo estava apenas começando a ficar grisalho, mas as linhas de expressão em seus olhos eram profundas. Para os meus olhos jovens, ela parecia velha, mas talvez isso fosse só porque eu era jovem.

Suas histórias me fizeram rir e senti como se um peso enorme tivesse sido tirado do meu peito. Senti como se eu pudesse de algum modo viver.

“Você parece melhor, Alice”, disse ela quando o nosso jogo terminou.

“Obrigado senhora, eu me sinto melhor”, suspirei, e não era nem uma mentira. Normalmente, eu mentia neste lugar, porque a verdade me trancaria em níveis inferiores, de onde os gritos vinham.

“Eu estarei de volta amanhã, e espero que possamos jogar novamente. Eu normalmente não tenho esse divertimento no meu turno. Você tem um espírito encantador, mas de alguma forma você parece muito velha para treze anos. “

“Sinto-me mais velha, muito mais velha. Eu me diverti. Muito obrigada, ” Eu deixei a emoção em minha voz tentar demonstrar o quão grata eu estava.

O dia seguinte foi igualmente divertido. Nós jogamos poker, e eu ganhei. Já pelo final do jogo me sentia mais normal do que tinha entido em quase um ano.

Nós jogamos jogos como esses por quase duas semanas. Isso não ajudava a afastar as visões, mas me consolava ter alguém que me tratava como uma menina jovem normal, ao invés de apenas uma paciente.

O fim da segunda semana porém foi estranho. Eu podia sentir alguma coisa na minha mente me avisando, mas apenas como as visões, era nebuloso e pouco claro. Eu esperava que a companhia de Nancy me animasse, porque eu não queria ter um ataque em sua presença. Eu não queria que ela me visse assim.

“Oi querida, pronta para o nosso jogo?”, ela me perguntou alegremente.

Ela me ensinou buraco, o jogo interminável, ela o chamava, e o jogamos por quase duas horas. Ela ainda não me perguntou sobre minha família ou visões como os outros adultos de roupa branca aqui. Eu era tão grata a ela por isso.

Pouco antes do jantar, a visão me atingiu. Eu fiquei tensa enquanto o horror me pegou desprevenida. Era Nancy, e alguns homens. Ela estava andando, mas eu não podia ver onde, e eles estavam prontos para pular em cima dela. Eles tinham uniformes, e eram muito grandes. Eles iriam machucá-la. Então eu vi o sangue dela escorrendo pela rua com a chuva. Quando voltei a mim, Nancy estava me segurando em seus braços e pedindo ajuda.

“Não vá Nancy! Não vá! ” Eu gritei para ela enquanto agarrava seu vestido branco e a puxava para mim.

” Solte Alice, querida está tudo bem. Apenas solte ” .

“Não! Eles vão te matar! Eles vão te matar! Não vá! ” Minha voz estava atingindo o tom de histeria, e eu sabia disso, mas eu não conseguia parar de gritar. De repente, minha mão puxou muito forte, e os botões na frente do seu vestido branco cederam. O vestido dela abriu. Segurei seu cabelo pelo seu rosto ainda gritando para ela.

Dezenas de mãos estavam em mim de uma vez só. Eles me puxaram para longe dela e me seguraram no chão. Eu estava chutando e lutando contra eles. Ela tinha que entender. Ela não poderia ser morta. Eu precisava salvá-la.

Algo afiado perfurou o meu braço e uma pressão fria e dolorosa começou a se espalhar por ele e diretamente para minha cabeça e olhos. O quarto inclinou e se revirou, e eu apaguei.

Quando abri meus olhos, as pessoas tinham ido embora, mas o sol estava lá fora. Ele estava diretamente acima de mim, mas havia também um cômodo que estava girando de uma forma doentia. Eu pensei que talvez eu estivesse em um barco dentro do quarto. Pisquei várias vezes, e o balanço parou. O sol se encolheu até ser uma lâmpada elétrica diretamente sobre mim. Eu tentei esfregar os olhos para me ajudar a concentrar, mas minhas mãos só se moveram poucos centímetros. Esfriei por dentro quando olhei para baixo para ver que meus pulsos e tornozelos tinham faixas de couro enroladas em torno deles. Eles haviam me acorrentado!

“Não!” Eu gritei. “Não façam isso comigo! Eu não fiz nada! Me ajudem! Mamãe, me ajude!” Terror me congelou com as três últimas palavras. “Mamãe, me ajude!” Eu gritei ainda mais e mais até que meus pulmões e garganta queimaram e que minha voz foi embora.

Depois de um tempo, eu simplesmente deitei lá e chorei lágrimas silenciosas de raiva e vergonha. Minha mãe nunca viria novamente. Eu tinha feito isso comigo mesma, ou pelo menos a minha loucura tinha feito. Eu estava louca, disso eu estava certa, e eu chorei em luto pela vida que eu nunca teria.

A porta se abriu, e vi que o corredor não tinha janelas. Com choque, percebi que eu estava provavelmente abaixo do solo, eu era uma dos que gritavam agora. O homem que entrou tinha um casaco branco e nem sequer olhou para mim quando ele ergueu uma coisa prata e a afundou-a em meu braço. No início, eu pensei que era uma faca, e me perguntei se ele iria me matar, mas eu estava muito cansada e com medo de gritar, além do mais minha voz tinha ido embora. Então a fria pressão se espalhou novamente. “Uma pena” , eu ouvi ele dizer enquanto a escuridão me levava. A escuridão nunca terminou.

 

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